quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Umbanda, religião das várias linguagens


O universo das religiões afro-brasileiras permite várias denominações, na dependência de como se organizam as influências das três matrizes que a geraram e da localização geográfica.

O encontro das três raízes ou matrizes formadoras vem acontecendo desde a 2ª metade do século XVI. O primeiro encontro foi de indígenas brasileiros com os europeus. O segundo encontro entre africanos e europeus. Finalmente o encontro de indígenas autóctones e africanos.

A mistura, a interação foi tendo várias denominações, como dissemos, em várias regiões do país, todavia no presente trabalho nos interessaremos pela denominação Umbanda.

Na região sudeste, no Espírito Santo, tivemos a Cabula, influência Bantu, que tinha como sacerdote o Embanda (chefe de culto). Muitos associam a possível denominação Umbanda ao fato citado, com o qual discordamos.

O culto que surgiu do caldeamento de crenças, ameríndias, africanas e européias deu-se o nome de macumba, principalmente no Rio de Janeiro, são Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Mas afinal o que era a tal macumba?

Vemos na macumba a própria Umbanda que gradativamente foi manifestando-se. Primeiro, por dentro da fusão de cultos africanos (vários povos). Segundo, a mistura de concepções religiosas dos indígenas brasileiros (várias nações). Terceiro, a nítida influência imposta pelo catolicismo europeu e outras denominações.

No século XVIII e primeira metade do século XIX tivemos de forma subjacente várias manifestações de Umbanda (denominada de macumba, na época) em várias regiões brasileiras.

Em cada região uma denominação diferente. O movimento, como estamos afirmando, não foi revelado ou manifesto de forma individual, mas sim, coletiva; alguns nomes (pontuais) porém, podem ser destacados em virtude de suas atuações ritualísticas, mas que são apenas ícones de um processo, reiteramos, coletivo.

A bem da verdade, não podemos olvidar nomes consagrados na História, tais como: Juca Rosa (RJ) e João de Camargo (SP) e outros tantos anônimos que praticavam a Umbanda sob várias denominações, mas que eram tidas pela opinião pública, de forma preconceituosa, como “macumba”.

Adiantando-se no tempo, chegaremos ao século XX, onde tivemos o kardecismo (no Brasil desde a última metade do século XIX) absorvendo conceitos e entidades ou guias espirituais da práxis, do panteão umbandista, principalmente o Caboclo (indígena brasileiro, mestiço). Dessa aproximação surgiu, e isto reiteramos enfaticamente, a “Umbanda Branca” com influências majoritárias do kardecismo e catolicismo (classe média urbana).

Anteriormente citamos que a Umbanda, de forma subjacente, há muito surgira, juntamente com outras religiões afro-brasileiras. A Umbanda surgiu principalmente da mistura afro-ameríndia, com mínimas influências (pelo menos na essência) do catolicismo. Entre as várias Escolas citamos: Umbanda Omoloco (Bantu-indígena), Umbanda traçada (Bantu-Nago-Indígena), Umbanda Mista (Bantu-Nagô-Indígena-Ocultismo), Candomblé de Caboclo e outras. O importante é que percebamos que elas antecederam em muito tempo o surgimento da Umbanda Branca. Na verdade todas as manifestações citadas são partes (diversidade) do todo (unidade) chamada Umbanda, e como se sabe, a parte não pode ser o todo e, muito menos, maior que ele.

Precisamos repensar quando afirmamos que a Umbanda surgiu no século XX, em 1908, no Rio de Janeiro com o médium Zélio Fernandino de Moraes. Há quem afirme que a primeira manifestação se deu na Federação Espírita de Niterói, o que foi negado pelos registros desta instituição, alegando que no dia do possível evento não houve culto e não há nenhum registro sobre o episódio (?!!).

Nada contra o trabalho desenvolvido por Zélio de Moraes e sua entidade espiritual, o Caboclo Sete Encruzilhadas (o chefe), que muitos afirmam ter sido em reencarnações passadas o padre católico Gabriel de Malagrida (??!!).

Mais uma vez há um processo eurocêntrico, pois o Zélio é branco (europeu) e sua entidade espiritual idem. Claro que não estamos fomentando com isto o racismo ou outra discriminação qualquer, todavia precisamos ter ciência de que acontecia no Rio de Janeiro, no início do século XX.

Para nós parece algo que marginaliza o negro e o índio, e pior, deixa-se à margem aqueles que desde áureos tempos cultuavam os espíritos divinos (Orixás, Inquices e Vodun) e espíritos ancestrais, que são o mote principal de qualquer religião afro-brasileira, e é isto que queremos enfatizar. Seria uma forma de fazer as classes dominantes subordinar na época as religiões de indígenas e africanos.

Sim, vemos pertinência no que sugerimos, pois até tomaram emprestados fundamentos do Kardecismo e Catolicismo, que respeitamos profundamente, mas que em nossa opinião é improcedente. Ou seria para disfarçar a ojeriza que possuíamos de culturas ditas primitivas como as dos indígenas e africanos? Teríamos colocado a “religião de primitivos nos trilhos do evolucionismo vigente e porque não, estaríamos dando um caráter mais “científico” (kardecismo) deslindando definitivamente dos “hotentotes” africanos e dos “infantes” indígenas brasileiros”?

É óbvio que há a Umbanda branca, sendo de igual importância que as demais, inclusive as que antecederam-na, e que jamais pleitearam a fundação e muito menos de terem um revelador, fundador ou codificador de Umbanda.

Esperamos que nossas ilações incentivem as linhas de pesquisas no tema, porém pelo propugnado anteriormente, acreditamos poder concluir:

1. Que os cultos denominados de Macumba foram as primeiras manifestações de Umbanda.

2. A Umbanda não foi fundada no século XX. A denominada Umbanda Branca é que pleiteia ter sido fundada no século XX (1908).

3. A manifestação da Umbanda (o todo) não foi uma ação individual, mas coletiva.

4. A Umbanda é uma unidade (todo) que se manifesta de forma plural, em várias Escolas (diversidade). Todas elas, portanto, legitimamente denominadas Umbanda.

5. Não é, pois verídico afirmar-se que a Umbanda foi fundada por esta ou aquela Escola, muito menos em determinado ano, mês, dia, hora e local (mito de fundação). Reiteramos, a Umbanda surgiu no espaço e no tempo por intermédio de uma ação coletiva.

6. A Umbanda branca também obedece o mesmo critério de ação coletiva, porém por motivos vários (discutiremos em outros tópicos) o médium Zélio Fernandino de Moraes, no Rio de Janeiro, foi o mais citado por dentro da Umbanda Branca.

7. A Umbanda Branca é tão somente uma Escola como as demais, e ela sem as demais Escolas, não representa a Umbanda. É mais uma Escola, mas não a primeira ou a fundadora.

8. A Umbanda e algumas de suas Escolas citadas antecedem a Umbanda Branca (que muitos insistem que a mesma seja o modelo, a única forma correta de doutrina e práticas). Felizmente o tema está sendo rediscutido e atualizado sob a égide da luz e de razão (Teologia, Antropologia e Ciência da Religião) que acreditamos concluirá o que outros e nós (FTU) estamos demonstrando, apartados que somos de interesses escusos e falácias ideológicas.

Procedendo as nossas considerações, discussões e ilações que colocamos à discussão, ao diálogo (que temos como terapia), convidamos o leitor amigo a leitura da próxima publicação em que discutiremos o lado espiritual do surgimento de Umbanda.


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 96

Um comentário:

  1. Bênção Meu Mestre,

    Os alunos da FTU estão, com certeza, muito orgulhosos deste feito inédito no mundo – Teólogos com ênfase em Religiões Afro-Brasileiras.
    O que depender de alguns, tudo será possível de ser feito – basta querer e ir à luta. Parabéns!

    Quanto ao artigo, minha bisavó e tataravó cearenses, bem no início do séc. XX já faziam "Macumbas". Infelizmente minha mãe não pôde obter mais informações (em 1929), pois minha avó a proibiu de ver as "macumbeiras" da família - intolerância na própria família. Depois ela veio para São Paulo, perdendo totalmente o contato com seus familiares.
    Conheço Umbandistas que, por preconceito de alguns setores da Sociedade e por pura falta de conhecimento, praticam a Umbanda e se deixam influenciar por "catequizadores de Kardec", abrindo a porta de seus terreiros para que estes deem cursos sobre os livros dessa vertente espírita.
    O preconceito, a intolerância fazem com que alguns se sintam constrangidos e acuados.
    Felizmente, isso está mudando. As pessoas começam a acordar e a ver as Religiões Afro-Brasileiras - a Umbanda -, como uma religião de respeito, de muita luz.
    Com certeza, isto se deve ao Senhor e a muitos outros, que não medem esforços nessa luta, que é a luta de todos nós - Umbandistas.

    Fico feliz em ser uma futura Teóloga com viés Umbandista/Religiões Afro-brasileiras e, principalmente, por seguir os seus passos, ser tua filha, quiçá sua discípula (se tiver esse merecimento, é claro).

    Saravá, meu Mestre, meu pai, bênçãos !

    Fatima Desombergh

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