segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A macumba foi a primeira manifestação da Umbanda?

RESUMO

A História, mais especificamente a historiografia das religiões Afro-brasileiras, afirma que as mesmas surgiram da maior ou menor influência que tiveram do encontro ou interação de três matrizes: o catolicismo europeu (com um sistema de culto popular e com rico imaginário de seus fiéis); as religiões de povos indígenas brasileiros (sincretismo endógeno) e, finalmente, das religiões de povos africanos, também sincretizados, ainda em África.

O que seria esta interação assimétrica? É assimétrica pois o catolicismo, na época, prevaleceu sobre as concepções religiosas dos indígenas brasileiros e africanos. Concluímos que as religiões afro-brasileiras têm maior adesão a matriz ameríndia e a matriz africana. As religiões afro-brasileiras respeitam e conciliam os fundamentos cristãos (Kardecismo e Catolicismo) e os não cristãos (cultos africanos e indígenas).

As partes (matrizes) não representam o todo (as religiões afro-brasileiras), pois as mesmas não mantém sua identidade quando estão separadas de sua função e lugar no todo. As religiões afro-brasileiras estando em contínua mudança transitaram da primeira interação assimétrica, em pleno século XVI, até o fenômeno da convergência (no século XX).

Palavras-chave: Assimetria do Sagrado, História, Macumba, Religiões Afro-brasileiras, Sincretismo.

Abstract

History, more specifically the history of Afro-Brazilian religions, claims that arose fromthe same more or less influence they have had the encounter or interaction of threesources: the European Catholicism (with a system of worship and popular with richimagery of his faithful ), the religions of Brazil's indigenous peoples (indigenoussyncretism), and finally, religions of African peoples also syncretized, still in Africa.

What would this asymmetric interaction? It is asymmetric because Catholicism at the time, prevailed over the religious views of the Brazilian Indians and Africans. we conclude that the african-Brazilian religions have greater adherence to matrixAmerindian and African origin. African-Brazilian religions in regards reconciling the Christian foundations (Kardecism and Catholicism) and non-Christians (religion of African and indigenous).

The parties (parent) do not represent the whole (the african-Brazilian religions) becausethey do not maintain their identity when they are separated from their function and placein the whole. The african-Brazilian religions and is continuously changing over from the first asymmetric interaction, in the sixteenth century, to the phenomenon of convergence(in the twentieth century).

Keywords: Asymmetry of the Sacred, History, Macumba, Afro-Brazilian Religions,Syncretism.


A MACUMBA FOI A PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO DA UMBANDA?

A História, mais especificamente a historiografia das religiões Afro-brasileiras, afirma que as mesmas surgiram da maior ou menor influência que tiveram do encontro ou interação de três matrizes: o catolicismo europeu (no Brasil com um sistema de culto popular e com rico imaginário de seus fiéis); as religiões de povos indígenas brasileiros (sincretismo endógeno) e, finalmente, das religiões de povos africanos, também sincretizados, ainda em África.

O sumário de alguns fatores da interação dessas matrizes será citado, na expectativa que se obtenha substrato para se afirmar que o culto miscigenado denominado macumba, em verdade, era a Umbanda.

1. Pelos motivos aludidos em textos anteriores (as matrizes não interagiram em condições de igualdade) pode-se dizer que a interação foi assimétrica).

2. No passado o culto ou cultos oriundos da interação das três matrizes sofreram perseguições, principalmente pelo Santo Ofício da Inquisição, acusados de “bruxaria”.

3. Nos séculos mais próximos dos dias de hoje houve preconceitos e violências várias cometidas contra as religiões Afro-brasileiras, como invasão de terreiros e a prisão de seus membros acusados de praticar curandeirismo, charlatanismo, entre outros.

Atualmente há também a intolerância das religiões neopentecostais (declarada) e de outras religiões (tácitas), que invadem e depredam terreiros.

4. Ao contrário das religiões do livro (possuem livros sagrados) – Bíblia, Torá e Corão, as religiões Afro-brasileiras tem seu conhecimento calcado na tradição oral, sendo também preconceituadas por este motivo.

5. As religiões Afro-brasileiras se baseiam na tradição oral, no transe mediúnico ou de possessão, culto aos Orixás (Voduns, Inkices); culto aos Ancestrais Ilustres (espíritos desencarnados - denominados de eguns no Candomblé e espíritos protetores em outros cultos), o canto sacro, a música sacra, a dança sacra, podendo alguns cultos ter sacrifício animal e o uso de bebidas que propiciam “estado superior de consciência”.

6. Pela riqueza de detalhes doutrinários e ritualísticos somados com a imensa diversidade, os cultos nem sempre foram bem compreendidos pelos forâneos, que estão eivados de preconceitos firmados em seus pontos de vistas, sem nenhuma isenção.

7. As religiões afro-brasileiras por suas características, se distanciam do modelo monoteísta vigente, fator este primordial para muitos sentenciarem que seus cultos são de magia negra. Mas como, se não são maniqueístas? A ética das religiões afro-brasileiras e seus valores são diferentes das religiões ocidentais, fato este não considerado, tanto é que afirmam que as religiões Afro-brasileiras são de “pessoas inferiores”, ignorantes, negros ou mestiços, e, principalmente de pobres.

8. Felizmente, a sociologia e a antropologia de hoje afirmam que não há religiões superiores ou inferiores, certas ou erradas, de deus ou do demônio, pois quem assim julga, o faz de forma preconceituosa, principalmente por ser adepto de outras religiões, que não as Afro-brasileiras.

9. Na colonização do Brasil tivemos muitas atrocidades, mormente a escravidão do africano e do indígena brasileiro e porque não dizer do pobre que alcançou os dias de hoje. Tudo por manutenção da desigualdade social, cultural, política e econômica, que desejam seja também no âmbito do Sagrado.

10. Antes de continuarmos o sumário lembremos que em 1891 (século XIX) por intermédio da Constituição Republicana houve a separação entre Estado (laico) e catolicismo (até então religião oficial) promovendo a liberdade de culto.

Retomando o texto em seu foco principal, o que seria a interação assimétrica? É assimétrica pois o catolicismo, na época, prevaleceu sobre as concepções religiosas dos indígenas brasileiros e africanos, isto é, tentou submetê-los à catequização portanto uma violência às liberdades de expressão e de cultura.

Vejamos no diagrama como aconteceu e se manifestou essa interação assimétrica. Iniciemos, por hipótese, que a interação fosse simétrica, isto é, influências em condições de igualdade e sem hierarquização ou imposição, o diagrama seria:



O ponto O, no centro do triângulo é eqüidistante de A, B e C, portanto demonstrando que as influências foram balanceadas, equilibradas e recíprocas, mas não foi o que aconteceu.

Na condição assimétrica (assimetria do Sagrado nas religiões Afro-brasileiras) teremos o seguinte diagrama:



O ponto O é excêntrico, fora do centro, demonstrando que a interação não ocorreu em condições de igualdade.

Após esta demonstração, que de maneira alguma se posiciona contrária as várias teorias consagradas, respeitando-as, quer contribuir dando mais uma versão que pode ser aceita ou refutada.

Sabendo-se que a interação foi assimétrica temos como teoria que a primeira forma dessa interação evoluiu para as várias religiões afro-brasileiras que surgiram e ainda se amoldam nos dias atuais.

Mais uma vez utilizaremos o diagrama geométrico, que esperamos facilite a demonstração, para a posteriori, aprofundar o conceito e alicerçá-lo em comunhão com outras teorias convergentes.

Antes da visualização do diagrama, é necessário reiterar que consideramos o primeiro modelo de interação assimétrica como sendo o da denominada macumba, que insistimos ser a primeira manifestação de Umbanda. Com isso, não estamos negando as outras maneiras de perceber, estudar, pesquisar e entender o fenômeno. Segundo nossa ótica, o fenômeno foi se desdobrando, se desenvolvendo no tempo (do século XVI até hoje) e em distintas regiões geográficas do Brasil e outras regiões da América, principalmente a América do Sul.

Visualizemos o diagrama:



Fundamentalmente o diagrama tenta reproduzir o que afirmamos anteriormente, senão vejamos:

Balizamos nossa “reta”, com o Kardecismo e o Candomblé em extremidades opostas.

Balizamos com os extremos (Kardecismo e Candomblé), pois ambos os sistemas citados tem como fundamento basilar o transe mediúnico (Kardecismo) e transe de possessão (Candomblé). Pode-se questionar porque não citamos o catolicismo e a matriz indígena. A resposta é simples, estão implícitas no primeiro modelo de interação assimétrica, sendo que a matriz indígena também propugna o transe, e o catolicismo tem visão contrária, portanto preferimos as maiores influências, quais sejam a tradição oral e o transe, fatores comuns às matrizes ameríndia e africana.

Aprofundemos o digrama e vejamos o trânsito do modelo da interação assimétrica por nós proposto.

Afirmamos que a macumba era a Umbanda, ou sua primeira manifestação. Com isso estamos dizendo que ela deu formação as várias religiões afro-brasileiras ou também as várias Escolas, não como algo instituído, mas sua manifestação.

A Umbanda localizada no centro ao transitar para o 1d, isto é para o Candomblé, estaria formando uma escola mais próxima da matriz africana. O mesmo deveria acontecer para a esquerda, indo ao encontro do Kardecismo, a Umbanda Cristã ou Umbanda Branca.

Isto estaria resolvido se o processo fosse simétrico, ou seja, ele se direcionaria, ao mesmo tempo, para pontos eqüidistantes do centro, formando Escolas mais próximas do Kardecismo ou do Candomblé. Isto não aconteceu e não acontece pois o modelo de interação, na realidade, é assimétrico.

Podemos concluir que a maioria das religiões afro-brasileiras ou Umbanda deve sua formação a maior proximidade com as religiões indígenas em conjunção com alguns grupos africanos (Angola, Congo, Cabinda). Entre esses cultos citamos a Pajelança, o Catimbó, a Umbanda Traçada, o Candomblé de Caboclo (Angola), entre muitos outros.

Outros cultos como o Tambor de Mina, o Xangô Pernambucano, o Batuque Gaucho e outros, receberam fortes influências de grupos Jejes e Nagôs.

O riquíssimo panteão das religiões afro-brasileiras com seus Pais Divinos (Orixás) e Pais Ancestrais (entidades espirituais) e toda gama de entidades que pululam no imaginário, no simbolismo de seus prosélitos tem como concretizador aquele que é patrono do movimento, dos limites, dos caminhos, das trocas simbólicas – Exu, Sr. do Mercado das Tradições afro—brasileiras, entidade presente em todas as religiões afro-brasileiras.

Encerrando este breve texto intróito, queremos estender a todos, adeptos ou não dos vários sistemas filosófico-religiosos, nossas vibrações de luz na mente e paz no coração. Boa leitura! Axé!

Adendo

1. Pelo texto concluímos que as religiões afro-brasileiras têm maior adesão a matriz ameríndia e a matriz africana. As religiões afro-brasileiras respeitam e conciliam os fundamentos cristãos (Kardecismo e Catolicismo) e os não cristãos (cultos africanos e indígenas), talvez por não serem maniqueístas.

2. O motivo das partes (matrizes) não representar o todo (as religiões afro-brasileiras)deve-se as mesmas não manterem sua identidade quando estão separadas de sua função e lugar no todo.

3. As religiões afro-brasileiras estão em contínua mudança, transitando da primeira interação (assimétrica), no século XVI ao fenômeno da convergência (iniciado no final do século XX, sem data para o término).

4. A convergência não é uma simples combinação ou interações de valores das matrizes européia, indígena e africana, diferentes, que desapareceram como forma nas religiões afro-brasileiras, persistindo em essência no bojo delas.

5. O exemplo clássico é o da analogia com a água (H20). Por analogia associamos a água às religiões afro-brasileiras. A água é formada por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio que tem propriedades diferentes da água. Ao hidrogênio e oxigênio associamos as matrizes formadoras das religiões afro-brasileiras.

O princípio afirma que a análise das partes nunca pode proporcionar uma compreensão do todo, uma vez que o todo é definido pelas interações e interdependência das partes. As partes não mantém sua identidade quando separadas de sua função e lugar no todo.

Depois destas inserções esperamos ter proporcionado luz ao tema, que discutiremos e aprofundaremos em textos futuros.

6. O modelo demonstrado é pela Convergência, mas principalmente coloca as Religiões afro-brasileiras como conciliadoras. O sagrado é conciliador, propugna a paz em todos os níveis. Portanto, as religiões afro-brasileiras são pela inclusão total.


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 101

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