segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Umbanda - Uma Religião com Mito fundante?

RESUMO

A tradução oral baliza e é o elo comum entre todas as Religiões Afro-brasileiras, presentes nas várias regiões do Brasil com diferentes manifestações.

A interação das três matrizes formadoras explica as distintas manifestações, pois em cada região houve predominância de uma ou duas matrizes, tendo como produto uma Religião Afro-brasileira específica, mas que tem como mote central: o transe, a música, o canto, a dança, o culto aos espíritos divinizados (Orisha, Vodun, Inquice) e nos espíritos dos antepassados (Caboclos, Marinheiros, Boiadeiros, etc.) e, principalmente, a tradição oral.

Há alguns, não acadêmicos, mas merecedores de consideração e respeito, que afirmam que a característica principal das Religiões Afro-brasileiras ou Umbanda é a manifestação do Caboclo (matriz indígena), Preto-Velho (matriz africana), os fundamentos católicos e kardecistas (matriz indo-européia). Respeitosamente, discordamos da assertiva e apresentaremos os motivos de tal posicionamento.

Palavras-chave: Inclusão, Mito Fundante, Religiões Afro-brasileiras, Tradição Oral, Umbanda.

ABSTRACT

The oral translation is the common link between all the Afro-Brazilian Religions, present in several regions of Brazil with different manifestations.

The interaction of the three arrays that form them explains the different manifestations, as in each region had a prevalence of one or two matrices, having as an Afro-Brazilian religion specifically, but that has as its central theme: trance, music, singing, dance, the cult of deified spirits (Orisha, Vodou, inquices) and the spirits of ancestors (Caboclos, Sailors, Boadeiros, etc.). and especially the oral tradition.

There are some, not academics, but worthy of consideration and respect, who say that the main characteristic of the Afro-Brazilian Religions or Umbanda is the manifestation of Caboclo (indigenous matrix), Preto Velho (African origin), the Catholics and Kardecists foundations ( Indo-European matrix). Respectfully, we disagree with the statement and present the reasons for such placement.

Keywords: Inclusion, Founding Myth, Afro-Brazilian Religions, Oral Tradition, Umbanda.

UMBANDA – UMA RELIGIÃO COM MITO FUNDANTE?

A tradução oral baliza e é o elo comum entre todas as Religiões Afro-brasileiras, presentes nas várias regiões do Brasil com diferentes manifestações.

A interação das três matrizes formadoras explica as distintas manifestações, pois em cada região houve predominância de uma ou duas matrizes, tendo como produto uma Religião Afro-brasileira específica, mas que tem como mote central: o transe, a música, o canto, a dança, o culto aos espíritos divinizados (Orisha, Vodun, Inquice) e nos espíritos dos antepassados (Caboclos, Marinheiros, Boiadeiros, etc.) e, principalmente, a tradição oral.

Há alguns, não acadêmicos, mas merecedores de consideração e respeito, que afirmam que a característica principal das Religiões Afro-brasileiras ou Umbanda é a manifestação do Caboclo (matriz indígena), Preto-Velho (matriz africana), os fundamentos católicos e kardecistas (matriz indo-européia). Respeitosamente, discordamos da assertiva e nos apressamos em dizer o porquê.

A discordância maior prende-se ao aspecto do fator homogeneizante, e isto é muitíssimo grave nos fatores culturais e acadêmicos, entre outros.

Temos ciência que os africanos aportados para o Brasil, mesmo que oriundos de um mesmo local geográfico eram muitos diferentes entre si. É ideológico querer homogeneizar as culturas para melhor dominá-las. Querem demonstrá-las como se fossem “única”, para a seguir contragolpeá-la com um único argumento e várias falácias e discursos erísticos. Pronto, mais um artifício das oligarquias culturais, para açambarcar a possível heterogeneidade africana que ameaçaria a hegemonia da cultura européia ou ocidental.

O mesmo aconteceu em relação às nações indígenas; todos têm um estereótipo do indígena brasileiro, devidamente construído na esteira da homogeneidade, o que é absurdo, criminoso no ponto de vista ético-humano.

Aqueles que tentaram homogeneizar (querem que tudo seja igual, pois é bom para seus famélicos desejos) as culturas indígena e africana, quiseram exterminá-las, principalmente quando sentenciaram que as doutrinas dominantes dessas religiões, aqui em terras brasileiras, tinham como regra mater ou fundamental o catolicismo (sincretismo provocado pela resistência e forma de diálogo com o opressor) e principalmente a doutrina esposada na segunda metade do século XIX, vinda de França, o Kardecismo (espiritismo) fundado por Allan Kardec.

Aqueles que estão na religião e propagam tal falácia, pois além de terem homogeneizado a cultura africana e indígena brasileira, desejam também fazer o mesmo com as Religiões Afro-brasileiras ou Umbanda, o que convenhamos, é uma forma grosseira de ideologia sofística com o único fim de querer codificar, engessar e dominar estas religiões. São os mesmos que de forma antiética afirmam quase “sussurrando” que são pela diversidade dessas religiões (ora, ora...). Mas como podem ser pela diversidade se afirmam que a Umbanda foi fundada, portanto teve um fundador, num dia, local e horário? Isto é mais uma falácia homogeneizante dos grupos, não somente culturais mas também religiosos, políticos e econômicos.

As Religiões Afro-brasileiras ou Umbanda nasceram no seio do povo, na massa empurrada para a periferia geográfica e porque não dizer cultural. Como de repente, alguém funda a religião de Umbanda, esquecendo sua origem, sua diversidade. Como? Como esquecer a liberdade negada e os direitos subvertidos de índios, negros, mestiços e pobres? Como?

Claro que não estamos fazendo apologia somente aos excluídos, a periferia cultural que é a maioria do contingente humano da sociedade brasileira, mas como esquecê-los? Queremos incluir a todos. Cremos que as Religiões Afro-brasileiras ou Umbanda tem como mote principal a inclusão total, manifestada nas suas várias formas de interpretar o Sagrado, algo democrático e ético, que os “codificadores” ou os que preconizam um fundador de Umbanda querem negar, afirmando que a Umbanda surgiu no final da metade do século XX.

Alguns “expoentes” dessa “agremiação” codificadora, grassam aos seus confrades que procuraram escrever sobre a “história umbandista” que, digno de citação no livro, seriam somente os que concordam e apóiam que a Umbanda foi fundada ou revelada a uma única pessoa. Só por esta atitude autoritária e arbitrária pode-se perceber os desejos de tais grupos, que felizmente estão sendo colocados no seu devido lugar pela própria coletividade umbandista que, apesar de simples, humilde, pacífica e ordeira, não é desprovida de lógica e bom senso.

Para encerrar não podemos deixar de registrar alguns aspectos acadêmicos expressos nos recortes históricos (historiográficos) e de etnografia.

É lastimável que uns e outros, na expectativa de fazer um estudo de caso generalizem, induzem, quando sabemos a gravidade do método indutivo nas ciências humanas...

Seria de bom tom acadêmico, claro que segundo nossa ótica, que se estudassem as várias Escolas (segmentos), para depois, de forma isenta, se fazer a leitura, aquilatando e explicando que o estudo de caso foi feito no aspecto singular, isto é, de apenas uma Escola. A visão de uma Escola não pode representar o Todo (Unidade), o pensamento das demais Escolas.

A assertiva é pré-clara, pois se a Umbanda é uma Unidade Aberta em construção ou uma idéia manifesta em várias linguagens, as mesmas são, quanto muito, ângulos de interpretação da Umbanda (Unidade) e sozinhas não podem representá-La.

As Escolas das Religiões Afro-brasileiras ou Umbanda estão contidas nesta Unidade, quando e somente quando estão em interação uma com as outras e em função com o Todo. Se não forem obedecidos estes critérios a “Escola” deixa de pertencer à Unidade (Gestalt), portanto não pode mais ser denominada de Escola das Religiões Afro-brasileiras ou Umbanda.

Deixemos para breve a incursão mais aprofundada na essência e na forma da Unidade e diversidade das Religiões Afro-brasileiras ou Umbanda, que esperamos ter introduzido no texto quando afirmamos que a parte (diversidade) não pode ser o Todo (Unidade). Deixemos ao arguto estudioso leitor concluir se há gravidade e violência cometidas contra as Religiões Afro-brasileiras quando queremos que a parte seja maior que o Todo, ou seja, quando se quer codificá-la. Axé!


Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 95

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