quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A unidade umbandista manifestada na diversidade ritualística

O processo de convergência para a Paz Mundial, conforme aprendemos na Escola de Síntese, cuja casa-raiz é a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, implica na reunião de todos os povos em torno de um conhecimento integral, não-fragmentário da Realidade, que compreende as realidades espiritual e material como uma só, sendo esta última a manifestação da primeira.

Sabemos que o conhecimento humano foi setorizado em quatro formas de se observar a Realidade Una, a saber: a Filosofia, a Ciência, a Arte e a Religião. Percebemos que, embora os métodos de desenvolvimento desses quatro ramos do conhecimento sejam diferentes, seu objeto de estudo é sempre o mesmo, qual seja a Realidade em seus aspectos concretos ou abstratos. Considerando que o homem contém em si tanto as realidades concretas como abstratas, sendo ele o microcosmo que representa o macrocosmo. Em última análise, podemos dizer que o objeto de estudo dos quatro pilares do conhecimento é o próprio homem e sua identidade com o Cosmos.

Acontece que em virtude dos conflitos internos, da ignorância, dos apegos e do ódio, o homem fragmentou-se, refletindo-se isso na fragmentação dos quatro pilares entre si e cada um deles em várias subdivisões. A partir daí tivemos as várias escolas filosóficas, os vários setores religiosos, os vários ramos da ciência e as várias maneiras de expressão artística.

O papel da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, desde sua reimplantação no plano Terra em 1970, é colaborar para a reversão do processo de fragmentação que ocasiona os conflitos internos (dilemas existenciais de cada indivíduo) e os conflitos externos (guerras, desigualdades sociais e injustiça).

Em obediência às confrarias espirituais do Astral Superior, nossa escola estabeleceu mais um marco dentro do processo de convergência, quando no dia 28/08/2000, anunciou que a partir de então, haverá vários ritos públicos na Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino, no Templo Público da Rua Chebl Massud e no Templo Iniciático na Avenida Santa Catarina.

Esses ritos abrangem uma gama ampla de entendimentos do Sagrado, ou ângulos de interpretação, fazendo a convergência de praticamente todos os setores ou escolas dentro das religiões afro-brasileiras e, no Templo Iniciático, fazendo um rito que promove a união entre todos os setores filosófico-religiosos da humanidade, incluindo budistas, taoistas, shintoistas, hinduistas, muçulmanos, judeus, católicos etc.

Para demonstrar nossa proposição, basta observarmos os vários ritos desenvolvidos, quinzenalmente, conforme o esquema abaixo:

Rito ou Toque de Jurema (contatos com os Encantados ou Encantarias várias – promovendo a união com a Pajelança, Toré, Xambá, Terecô, Tambor de Minas e outros);

Rito de Umbanda Traçada (influências evidentes ameríndias e africanas, promovendo a união com os praticantes do culto Omolocô, do Candomblé de Caboclo e todos os demais que fazem essas ligações).

Rito de Umbanda Mítica ou Mista (influências regionais, com a presença de entidades que se manifestam como baianos, boiadeiros, marinheiros etc., fazendo o entrelaçamento étnico e dos sincretismos que surgiram dentro da Umbanda).

Rito da Kimbanda (Umbanda com fortes vínculos com a Kimbanda, com a presença dos Exus que carregam toda a valência kármica que sua função espiritual representa).

Rito de Umbanda Esotérica (Umbanda segundo os fundamentos preconizados por Mestre Yapacani – W.W. da Matta e Silva).

Fundamentos Básicos do Tríplice Caminho (Criança, Caboclo e Pai-Velho).

Fundamentos Cósmicos do Tríplice Caminho (Mestres da Pureza, Mestres da Fortaleza e Mestres da Sabedoria).

Fundamentos do Ombhandahum (no Templo Iniciático, canalização com os Orixás e identificação com a Realidade-Una)

Como podemos observar, nos vários ritos, existe uma ampla integração entre todas as escolas ou setores do movimento umbandista, algo pioneiro dentro da Umbanda. Isso só é possível pelo conhecimento prático sobre todos esses setores, nunca desdenhando de nenhum deles. Os vários ritos representam exclusivamente uma transição da visão regionalista para a visão universalista, sendo que todos são igualmente importantes e têm suas funções precípuas dentro da coletividade terrena.

Na maior parte dos templos, não existe uma compreensão mais ampla dos pontos em comum entre todos os setores umbandistas. A Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino é capaz de realizar esta interação devido ao seu aprofundamento dentro da visão cósmica da Umbanda. Essa postura de vanguarda foi muitas vezes mal interpretada, como se a O.I.C.D. pretendesse criar uma nova Umbanda ou uma seita elitista. Está claro agora que somente com a compreensão universalista do Sagrado, desenvolvida por nós ao longo dos anos, é possível a integração entre todos os setores do movimento umbandista, das religiões afro-brasileiras. Pelos motivos aludidos, é contrária à codificação.

Finalizando, o rito, realizado no Templo Iniciático, se propõe a fazer convergência não mais dentro da Umbanda apenas, mas principalmente entre os vários setores filosófico-religiosos, mostrando uma forma universal de relacionamento com o Sagrado, que nos remete a paz interna, convivência pacífica, o respeito incondicional às diferenças e a paz mundial. Axé!

P.S. Acompanha vídeo: FTU-Faculdade de Teologia Umbandista, promovendo a diversidade de cultos na Umbanda.




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 82

3 comentários:

  1. Prezado Mestre e Eminente Dr. Rivas,

    Me dirijo de fato com todo respeito, pois a muito acompanho sua trajetória com admiração e respeito. As vezes tentei uma aproximação, mas isso se dará se o Grande Arquiteto permitir-me essa graça.
    Como pessoa mais interessada nos aspectos iniciáticos, aqueles que transformam a pessoa inicialmente, tendo como consequencia a mutação social, fiz uma pergunta no texto anteriormente "blogado" sobre sua maestria em todas essas áreas das tradições brasileiras, não por desconfiança, pois seu trabalho para mim é o que mais representa de fato a gradiosidade de que a Umbanda é herdeira....
    Mas, como estamos no ambito social brasileiro, permita-me o questionamento: todos esses diferentes setores das tradições podem levar à iniciação na sagrada lei de Umbanda ?
    abraço,

    Antonio Sérgio

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  2. Aranauan, Saravá sr. Antônio Sérgio,

    Existe um texto chave do Mestre Arhapiagha que explica bem esta questão. Trata-se da "Resenha dos textos postados" disponível em: http://sacerdotemedico.blogspot.com/2010/02/resenha-dos-textos-postados.html

    Mais especificamente o seu 6º item elucida bem. Transcrevo o mesmo agora:
    "A Espiritualidade encontra-se em todas as religiões, transcende-as, não sendo monopólio de nenhuma delas. Todas as religiões são nobres e santas em suas aspirações, todavia não são os únicos métodos de acesso à Espiritualidade. Outros métodos (forma mediata) são encontrados na ciência, na filosofia, na arte e na cultura".

    Com esta afirmação podemos constatar que não só todas as formas de Umbanda levam à Iniciação, que em última análise é o alcance da Espiritualidade, mas também todos os setores da gnose humana com seus próprios meios (metodologia).

    Espero ter ajudado.

    Aranauan, Saravá
    Yabauara - filho espiritual de Mestre Arhapiagha

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  3. Saravá Yabauara,

    Obrigado. De fato, as postagens mencionadas abordam em parte a questão que levantei, seu comentário também. Agradeço e digo que espero que possamos nos próximos tempos trocar opiniões informações nesse âmbito. Um fraterno Saravá.

    Antonio Sergio

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