segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mais Vivências, Mais História Viva...

RESUMO

Meu compromisso sempre foi e será com a verdade, não só na vivência das religiões afro-brasileiras, mas em minha vida que se identifica totalmente com as religiões afro-brasileiras. Aprendi com vários Mestres que a vida é séria e deve ser bem vivida e para tal, se faz necessário vivenciá-la com ética, acima de qualquer desejo ou sentimento pessoal.

Em sua filosofia, Hegel dissertou sobre o movimento dialético da realidade. Dizia que, assim como um botão precisa desaparecer para que a flor surja, e a flor desapareça para que surja o fruto, da mesma forma, todas as coisas passam por um processo dinâmico de transformação que leva a uma síntese superior. Uma visão mais crítica o botão não precisa desaparecer, ele se transforma na flor, esta por sua vez no fruto até se perpetuar por intermédio da essência, do espírito (sujeito) como afirmara Hegel.

Com esse escopo quero citar nesta oportunidade um pouco mais de Pai Ernesto de Xangô Airá, algo que fiz no texto passado, pois foi com ele que iniciei minha vida nas coisas do Orixá, do Sagrado e as minhas vivências e aprendizados que tive a honra de ter com ele.

Palavras-Chave: Iniciação, Movimento Dialético, Pai Ernesto de Xangô Airá, Orunmilá-ifá, Vivência

ABSTRACT

My commitment has always been and will be with the truth, not only in the experience of the afro-brazilian religions, but in my life that is totally identified with the afro-brazilian religions. I have learned from various masters that life is serious and should be well lived and for that, it is necessary to experience it with ethics, above any desire or personal feeling.

In his philosophy, Hegel spoke about the dialectical movement of reality. Said that, like a button that needs to disappear so the flower can emerge, the flower disappears for the fruit to emerge, in the same way, all things go through a dynamic process of transformation that leads to a higher synthesis. A more critical view of the button need not disappear, it becomes the flower, this in turn the fruit to be perpetuated through the essence of the mind (subject) as stated by Hegel.

With this scope I want to mention in this opportunity a little more of Father Ernesto of Xangô Airá, something I did in the past text as it was with him that I have started my life in the “Orisha’s things”, the Sacred and my experiences and learnings that I had the honor to have with him.

Keywords: Initiation, Dialectical Movement, Father Ernesto of Xangô Airá, Orunmilá-Ifá, Experience.

MAIS VIVÊNCIAS, MAIS HISTÓRIA VIVA...

Meu compromisso sempre foi e será com a verdade, não só na vivência das religiões afro-brasileiras, mas em minha vida que se identifica totalmente com as religiões afro-brasileiras. Aprendi com vários Mestres que a vida é séria e deve ser bem vivida e para tal, se faz necessário vivenciá-la com ética, acima de qualquer desejo ou sentimento pessoal.

Ao empunhar a pena (o teclado) entabulando o raciocínio, incontinenti, a memória evocou Hegel (1770-1831) e com ele seu movimento dialético.

Em sua filosofia, Hegel dissertou sobre o movimento dialético da realidade. Dizia que, assim como um botão precisa desaparecer para que a flor surja, e a flor desapareça para que surja o fruto, da mesma forma, todas as coisas passam por um processo dinâmico de transformação que leva a uma síntese superior.

Uma visão mais crítica, segundo minha ótica, o botão não precisa desaparecer, ele se transforma na flor, esta por sua vez no fruto até se perpetuar por intermédio da essência, do espírito (sujeito) como afirmara Hegel.

Tese, antítese e síntese são transformações necessárias à realidade, que ora se apresenta como sujeito, ora como objeto e, finalmente, como a síntese - constructo daquela etapa, pois tudo se reinicia em virtude da realidade ser multidimensional.

Citamos Hegel, pois é por demais conhecida sua teoria, o movimento dialético, que expressa meu pensamento, pelo menos neste texto que entrego ao leitor.

Discordo de muitas outras teorias, filosofias de sua autoria, principalmente quando afirmava que “tudo que é real é racional, tudo que é racional é real”. Esse axioma foi muito utilizado pelo conservadorismo político, oferecendo justificativa filosófica para o “estado de coisas” predominante. Eis o motivo de minha não-adesão, pois somos avessos ao status quo eternizado, seja ele qual for, que, aliás, contraria sua própria teoria do movimento dialético.

O importante mesmo é a necessidade das mudanças constantes e nisso me identifico, tenho calcado toda minha existência como forma de aceitar o fluxo da vida que é transformação contínua.

Com esse escopo quero citar nesta oportunidade um pouco mais de Pai Ernesto de Xangô Airá, algo que fiz no texto passado, pois foi com ele que iniciei minha vida nas coisas do Orixá, do Sagrado e as minhas vivências e aprendizados que tive a honra de ter com ele.

Pai Ernesto (Baba Omolokan Airá) era um Babalorixá muito conceituado na sociedade do candomblé brasileiro. Cultuava o candomblé na linhagem Ketu, sendo que com ele aprendi princípios básicos e mais, awôs do axé e das comidas de santo (ajeum), como prepará-las para dar no ossé semanal; ritual do padê; xirê; como “tirar” os ebós para os orixás, exus e eguns segundo a necessidade; os mistérios da relação Ifá (noite), Exu (dia) e Ossaim – natureza - axé fundamental na ritualística dos Orixás, mas principalmente, nos de Orunmilá-ifá e seus ensinamentos via Opele ti Ifa ou Oponifá; bori (seu fundamento em várias oportunidades) e feitura – corolário da iniciação – do indivíduo que se consagra ao “santo” - “ori-axé” (“cabeça feita”).

Pai Ernesto, sendo discípulo direto do Babalawô Manuel do Bonfim, não fazia vaticínios, nem mesmo para saber onde seria enviado, “despachado” o ebó, se não fosse com o Opele ti Ifá. Além de me iniciar nos fundamentos de Orunmilá-Ifá, anteriormente, também me ensinou como perguntar aos Orixás por intermédio da alubaça (cebola), do mererindinlogun (16 + 5 búzios) e do obi. O oráculo de ifá por intermédio da caída dos ikin (coquinho de dendê) sem dúvida são mais complicados que os demais e exigem um profundo conhecimento sacerdotal, manifestados numa longa e difícil iniciação, numa transmissão direta de Babalawô iniciador para Babalawô iniciando.

Lembro-me perfeitamente, num determinado dia pela manhã, ao som do canto do galo (akukó) ouvi dele algumas palavras mágicas, encantatórias (ofos) e outras rezas que culminaram com o levantamento de meu Odu pessoal (um dos 256 – no meu caso foi um dos 16 oju odu) e dizendo que eu seria um sacerdote de Orunmilá Ifá, sendo filho de Oxaguian e Ogun Já.

No mesmo dia, que perdurou por quase 10 horas ele cantou os orikis, com suas ebamis, iaôs e muitos abiãs, algumas ekedes, e lembro-me bem da Yaná d’Ogun que era sidagã do ilê. Também conheci seus axoguns, e sua yabassê principal - Dofina, uma moreninha muito generosa, com a qual aprendi a preparar as comidas de santo, sempre acompanhadas de rezas repetidas várias vezes, mas de forma diferente para cada comida.

Com pai Ernesto de Xangô aprendi também vários toques para os Orixás, ensinados por ele mesmo quando tocava os ilús. O mais maravilhoso, e hoje tenho consciência da gravidade do rito, foi que aprendi a consagrar no fundamento do axé os ilús, algo de profunda relevância mágico-espiritual.

Eu vi, ele me ensinou e aprendi, na vivência do dia-a-dia da “roça”, a consagrar o ilú de acordo com o Orixá, com os devidos elementos (reais e simbólicos) para assentá-los, pois os atabaques “comem” como os Orixás, são suas vozes, suas volições e poderes, manifestos no “3º elemento”, sendo este o grande awô, e os iniciados que receberam o deká sabem o que estou dizendo.

Naquele tempo e mesmo na atualidade os Mestres Espirituais, que tem como ética o respeito aos fundamentos do Orixá, transmitiam e transmitem vivências e ensinamentos aos seus filhos de santo que jamais seriam feitos sem o devido “conhecimento teórico”, e principalmente da vivência e prática de vários anos sobre os fundamentos do Orixá.

Antes do término do texto, quero citar um rito que marcou profundamente minha atual existência e minhas atividades nas religiões afro-brasileiras. No dia anterior ao marcado para o ritual, fomos para a “roça”, pois iria deitar no roncó. Ficaria em obrigação 17 dias, só dormiria na “cissa”, comeria comidas votivas, sendo que três vezes ao dia tomaria banho e beberia água de abô.

Muito bem, eis que era chegado o grande momento! Ele se prepara, deixa-me sentado na esteira (cissa) e próximo a ela estão os pombos, o mel, dendê, sabão da costa, o pato branco (macho), os galos vermelhos, conquem (galinha de angola), navalha, comida votiva, vasilhas de louça branca e barro, água, ervas (ewe), obé, obi, moedas, dinheiro em cédulas, e os demais elementos para assentar o santo.

Apesar de tudo que estava vivenciando, permanecia sumamente calmo, sereno, embora, sob fortes e impactantes vibrações que não obstante faziam-me profundamente feliz. Parecia que estava em outro estado de consciência. Quando ia iniciar o ritual ele fez sua invocação a Orungan e confirmou meu odu pessoal. A seguir, nova jogada e acontece o inesperado, o imprevisto, pois segundo ele não poderia dar corte no meu ori, pois além de ser um babatundé era também abicô (trouxe a obrigação feita), mas precisaria dar ejé na terra com muito omi. Somente o ejé de um pombo foi vertido no meu ori, juntamente com o obi. O outro pombo foi colocado em vários pontos de minha cabeça e depois foi solto, alçando um longo vôo.

E assim não verteu sangue em meu ori, mas em meus pés, o que segundo ele representava uma oferenda aos meus ancestrais ilustres, que não eram meus pais carnais, pois os mesmos estavam vivos; meus pés representavam os ancestrais (pé direito – pai; pé esquerdo – mãe).

Como meus pés foram lavados com sangue, creio que meus guardiões ancestrais – os Exus, tomaram conta para que eu tivesse poderes para pisar onde deveria pisar e piso (seria o sangue dados aos eguns para vencer ijá).

Interessante que o Pai Ernesto conhecia a encantaria, o catimbó, e com ele também conheci o Mestre Serapião, Mestre Marujo, e tantos outros. Muitas coisas aprendi, mormente nas garrafadas, nos feitiços (bozós) e contra-feitiço, as firmezas ou fumaças da esquerda e as flores com mel para dar início às fumaças da direita.

Nesta época, vi aprendi e vivi coisas impressionantes, impossíveis de serem descritas ou relatadas, mas com certeza jamais esquecidas.

O mesmo acontecia com certas entidades da encantaria (Caboclos Encantados, Orixás-Caboclos e outros) que segundo ele eram encantados. Enfim, achei tudo muito diferente do culto de nação africano, mas confesso que tanto no Catimbó, quanto nas Encantarias várias, muito aprendi e vivi.

Gostaria de agradecer a todas as entidades que me ajudaram e ensinaram, pela fidelidade, pois me disseram que meu caminho seria outro, mas não me esqueceriam, pois seríamos inseparáveis. Disseram que muito eu precisaria de auxiliares, e quando o “penachudo” (Caboclo) chegasse e trouxesse as “ordens e direitos de trabalhos” junto com os Exus, eles me escorariam, e que não temesse nada, estariam comigo com a permissão de meus guias espirituais que atuariam desde os planos da encantaria até outros aspectos por dentro da Umbanda.

Por tudo que relatei no texto, sinto-me um privilegiado pela honra de ter conhecido e ser iniciado por Pai Ernesto de Xangô Ayrá. Seus sólidos conhecimentos nos fundamentos do Orixá me proporcionaram uma boa formação iniciática, sendo por isso profundamente grato a ele.

Ao citar Pai Ernesto de Xangô Ayrá, como meu primeiro Mestre Espiritual, faço com “orgulho”, pois ele foi um vencedor e jamais estendeu a sua sabedoria e conhecimento dos fundamentos do axé, a quem não fosse digno de levar no seu corpo a marca indelével de seu Orixá, de seu Olori.

Para os que se interessarem, poderão encontrar os desdobramentos de minha iniciação com Pai Ernesto de Xangô no livro que escrevi – Sacerdote, Mago e Médico, Ed. Ícone, 2003.

Somente agora, após 7 anos da publicação do livro citado, sinto-me liberto e totalmente à vontade para escrever o que escrevi, pois dei cumprimento a minha palavra, sendo justo e necessário resgatar verdades, vivências nos fundamentos e responder aos pseudos doutores da lei, sobre o porque de cultuar a Umbanda de Síntese, que muitos insistem em dizer ser contrária aos fundamentos da Umbanda Esotérica, propugnada por W.W da Matta e Silva – Pai Matta, do qual fui iniciado como Mestre de Iniciação de 7º grau, após uma convivência iniciática de 18 anos, e sendo por ele considerado seu sucessor.

Nas próximas publicações discorrerei as várias fases que compuseram o substrato as quais permitiram minha iniciação com Mestre Yapacany – Pai Matta, sem precisar olvidar os baluartes que o antecederam, tal qual, Pai Ernesto de Xangô Ayrá, ao qual rendo homenagem, respeito e amizade em dimensão eternidade.

Encerrando, que Orunmilá-Ifá manifesto em seus (256 x 2) onãs, inscritos pelo yerosun, testemunhe e confirme por intermédio de seus odus, permitindo o Dá Ifá fun, para que eu possa com a mais plena transparência e clareza, continuar transmitindo os vaticínios da verdade que neutralizam os da mentira e da impostura. Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 70

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