quinta-feira, 15 de julho de 2010

Teologia Umbandista - Promovendo a Convergência do Conhecimento

RESUMO

O conhecimento na atualidade é dividido em: empírico, teológico, filosófico e científico. Ainda assim não contemplamos a Arte (literatura, arquitetura, dramaturgia, etc.) e as denominadas pseudociências (mediunidades, artes oraculares, etc.). Para nós o conhecimento é transversal, interdisciplinar, convergente. O conhecimento científico é aberto, transitório, sempre receptivo a novas explicações, ao conhecimento sistemático dos fenômenos do mundo.

Os aspectos apofáticos e catafáticos da Teologia Umbandista nos dá uma nova dimensão, uma nova construção, talvez uma aporia revolucionária, pois não acreditamos que as tradições religiosas sejam imutáveis, uma porta definitivamente fechada. Por que não cremos? Pois se o mundo ainda não foi totalmente resolvido e muito menos explicado não sabemos a verdade última, aliás, só sabemos que as verdades são relativas, válidas por determinado período, substituídas por outras mais simples e mais próximas da “Verdade”.

As religiões afro-brasileiras são diferentes das religiões do livro, pois não tem uma teologia criacionista. Os conhecimentos são aberturas que os Orixás nos oferecem, portanto não negando as ciências. Como negar as ciências se a sabedoria das religiões afro-brasileiras encontra-se no mundo natural, social e sobrenatural? Com isso esperamos ter respondido aos que negam a teologia com viés de senso crítico e aos que negam ou se preocupam em catalogar nessa ou naquela ciência os fundamentos freudianos.

Palavras-chave: Escolas Umbandistas, Espistemologia, Religiões Afro-brasileiras, Teologia, Unidade Aberta

ABSTRACT

Nowadays, knowledge is divided into: empirical, theological, philosophical and scientific. Still, we don’t contemplate art (literature, architecture, drama, etc.), and Pseudosciences (mediumship, oracular arts, etc.).. For us, knowledge is transversal, interdisciplinary and convergent. Scientific knowledge is open, transitional, always open to new explanations, the systematic knowledge of phenomena in the world.

The kataphatic and apophatic aspects of Umbandistic Theology gives us another dimension, a new construction, perhaps a revolutionary aporia, because we do not believe that religious traditions are immutable, a door permanently closed. Why don’t we believe? For if the world has not been fully resolved, much less explained, all we know is that the ultimate truth, moreover, we only know that truths are relative, valid for a certain period, replaced by other simpler and closer to the "Truth."

African-Brazilian religions are different of the “religions of the book” because it does not have a creationist theology. Knowledge are gaps that are offered to us by the Orishas, so do not deny science. How could it deny science if the wisdom of african-brazilian religions is in the natural, social and supernatural word? We hope that we have answered to those that deny the theology with a gore of critic sense and those who bother to deny or catalog in this or that science the Freudians fundamentals.

Keywords: Schools Umbanda, epistemology, Afro-Brazilian Religions, Theology, Open Unity.

TEOLOGIA UMBANDISTA
PROMOVENDO A CONVERGÊNCIA DO CONHECIMENTO

Temos dialogado de maneira intensa, principalmente nesta primeira década do século XXI, sobre como posicionarmos a Teologia Umbandista no contexto do conhecimento.

O conhecimento na atualidade é dividido em: empírico, teológico, filosófico e científico. Ainda assim não contemplamos a Arte (literatura, arquitetura, dramaturgia, etc.) e as denominadas pseudociências (mediunidades, artes oraculares, etc.).

Muitos estudiosos afirmam que “o conhecimento religioso ou teológico é produto do intelecto do ser humano que recai sobre a fé”. (FACHIN)

Outros sentenciam que não é preciso ver para crer, e devemos crer mesmo que as evidências apontem para o contrário do que a religião nos ensina. “As verdades da religião são em geral tidas como definitivas, e não permitem revisão mediante a reflexão ou experiência”. (MATTAR)

Qual a conclusão? Será que a Teologia é simplesmente fé? Embora achemos a fé importantíssima, a mesma não é conhecimento, ou é? Segundo vimos acima a fé é definitiva. Será isso comum a todas as teologias?

Para nós o conhecimento é transversal, interdisciplinar, convergente. O conhecimento científico é aberto, transitório, sempre receptivo a novas explicações, ao conhecimento sistemático dos fenômenos do mundo.

Alguns notáveis do universo da filosofia e mesmo da ciência, afirmam que esta última possibilita que o mundo seja compreendido, proporcionando ao ser humano meios de exercer controle sobre a natureza.

Nos textos precedentes citamos várias vezes Nietzsche que em relação à ciência dizia não ser natural e pacífico conhecer a natureza. O conhecimento se dá por intermédio da dominação, isto é, todo conhecimento implica poder (ideologia).

Sobre a relação entre poder e ciência, Adorno e Horkheimer corroboram: “O ditador trata o homem como o homem trata a natureza: ele os conhece para melhor dominar”.

Não somos daqueles que propõem uma visão ambígua da ciência, mas precisamos repensar seus erros e acertos tornando-a importante para a vida humana; quais as condições e limites desse conhecimento e mais, quais os limites da atividade científica.

Antes de explicitarmos nosso pensamento sobre o conhecimento científico ou senso crítico, citemos alguns exemplos de classificação das ciências.

Na classificação moderna as ciências são divididas em: exatas (lógica e matemática); naturais (biologia, química e física); humanas (psicologia, antropologia, sociologia, estética, moral, história, entre outras).

Também apontamos a classificação de Eva Maria Lakatos, sendo uma das mais atuais e citadas nos meios acadêmicos. Segundo ela as ciências são divididas em formais e factuais ou empíricas. As formais compreendem lógica, matemática e naturais (biologia, química, física). As factuais compreendem as sociais (antropologia cultural, sociologia, direito, política, economia, psicologia, etc.)

Continuando, queremos robustecer nossos argumentos evocando Freud, muito citado em nossos trabalhos. Primeiro, citando o que a ciência pensava e pensa da metapsicologia ou psicanálise freudiana. A seguir, a visão de Freud (em sua época) sobre a religião.

Como os críticos da psicanálise frequentemente a rejeitam com o motivo de não ser cientifica, e como psicanalistas ocasionalmente argumentam que a psicanálise não é uma ciência, e sim uma humanidade, é preciso indicar que a proposição “a psicanálise não é uma ciência” pode ser encarada como verídica ou inverídica, segundo a escolha da definição apropriada de ciência.

Se se define ciência de modo a tornar o conhecimento derivado do experimento e da mensuração, parte essencial da definição, a psicanálise não é uma ciência.

Mas se se define ciência em função da tentativa de estabelecer relações causais entre acontecimentos, a questão gira em torno de acreditar-se ou não que as leis da causalidade (determinismo) podem ser aplicadas a organismos vivos capazes de consciência - como Freud acreditava, e Hume não.

Se for definida como “conhecimento sistemático e formulado”, a psicanálise é uma ciência e a questão se transforma na de decidir a qual ramo da ciência ela pertence, isto é, uma ciência biológica, natural ou moral.

Quanto aos conceitos de Freud sobre as religiões, remetemos gentilmente o leitor à obra “Ações obsessivas e práticas religiosas” (Freud - 1907), onde escreveu: Em vista dessas semelhanças e analogias, poderíamos aventurar-nos a encarar a neurose obsessiva como correspondente patológico da formação de uma religião, descrever essa neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal.

Freud também disse: “as idéias religiosas são ilusões, realizações das mais antigas, fortes e prementes desejos da humanidade”. (O futuro de uma ilusão, Imago Editora, 1974)

Os aspectos apofáticos e catafáticos da Teologia Umbandista nos dá uma nova dimensão, uma nova construção, talvez uma aporia revolucionária, pois não acreditamos que as tradições religiosas sejam imutáveis, uma porta definitivamente fechada. Por que não cremos? Pois se o mundo ainda não foi totalmente resolvido e muito menos explicado não sabemos a verdade última, aliás, só sabemos que as verdades são relativas, válidas por determinado período, substituídas por outras mais simples e mais próximas da “Verdade”. É o que afirmo sempre que posso, não temos a linguagem dos homens (ciência), não a conhecemos na íntegra, como querer que conheçamos as verdades divinas, que poderão ser causas das causas?!?

Acreditamos numa unidade aberta em constante elaboração, absorção e reelaboração tal qual é a teologia umbandista ou das religiões afro-brasileiras. Temos observado de forma crítica que a constante da tradição umbandista é a continua mudança, portanto uma unidade aberta.

Poderiam nos questionar que as demais teologias não têm esse perfil. Bem, falo pelas religiões afro-brasileiras, que reiteramos serem uma unidade aberta em construção, seus conhecimentos são transversais, convergentes. Afirmam que as partes não podem estar dissociadas do todo. (conhecimentos empírico, filosófico, teológico e científico)

Teologia não é apenas religião, mas sim o estudo inter e transdisciplinar onde se entrecruzam as várias ciências, filosofias e artes. Teologia é religião com viés crítico, rigor acadêmico e não apenas fé.

Como vimos, as religiões afro-brasileiras são diferentes das religiões do livro, pois não tem uma teologia criacionista. Os conhecimentos são aberturas que os Orixás nos oferecem, portanto não negando as ciências. Como negar as ciências se a sabedoria das religiões afro-brasileiras encontra-se no mundo natural, social e sobrenatural?

Com isso esperamos ter respondido aos que negam a teologia com viés de senso crítico e aos que negam ou se preocupam em catalogar nessa ou naquela ciência os fundamentos freudianos.

Não menos, esperamos que os leitores percebam que Freud, Karl Marx, Nietzsche, entre tantos outros que criticaram a religião, o fizeram pelas religiões ortodoxas ou dogmáticas, as quais respeitamos profundamente, mas discordamos quando tentam invalidar os avanços necessários e éticos das ciências. Criticaram os embaraços, a moral de rebanho, os valores humanos transformados em valores divinos como forma de poder, domínio e privilégio de poucos em detrimento de muitos.

No término deste intróito da missão das religiões afro-brasileiras precisamos referendar que não são todas as escolas ou segmentos de Umbanda que se enquadram no sincretismo católico-espírita. A escola denominada umbanda branca ou cristã é uma entre as diversas escolas umbandistas, todas merecedoras de nosso amplo e irrestrito respeito.

Não podemos confundir a parte com o todo, a parte só tem sentido se contextualizada com o todo, com a interação com as demais partes. Este argumento defende as várias formas de se pensar, fazer e viver a Umbanda. A Umbanda Branca não é a única, como a maioria dos estudiosos sentencia. Sim, tomam a parte pelo todo, não percebendo o dano que causam à cultura, à própria ciência que perde sua principal função, a de ser fiel no registro e conclusão dos fenômenos estudados.

No futuro próximo ou distante, não sabemos (Ah! Heisenberg!) retomaremos o tema, pois como sempre, não demos a última palavra.

Não temos a última palavra ou resposta, pois não temos a última pergunta. Axé!

Obs. Em anexo postamos o vídeo Teologia Umbandista não é somente religião. Na próxima publicação postaremos texto que reflete nossa visão das religiões afro-brasileiras e as diferenças com as demais teologias.




Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 54

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