segunda-feira, 19 de julho de 2010

Isonomia é mesmo para todos?!

RESUMO

As religiões afro-brasileiras, principalmente a Umbanda, em suas várias Escolas, defendem a teoria darwiniana, pois tem convicção que tudo acontece com o aval do sobrenatural, com a intervenção do Orixá. Percebemos que as religiões afro-brasileiras não são insensíveis às descobertas arqueológicas que demonstram biomas distintos nas diferentes eras geológicas e exemplares de mudanças, passo a passo, de uma espécie a outra.

Na FTU – Faculdade de Teologia Umbandista – a única faculdade de teologia de matriz brasileira se discute a transversalidade ou convergência entre os vários saberes e fazeres, portanto atualizada com a ciência, filosofia, arte e demais religiões. Há um estudo aprofundado em teologia e religiões comparadas, onde se dissecam ao máximo todas as religiões ou teologias.

Temos convicção, não por proselitismo ou defesa em causa própria, que a teologia umbandista difere de outras teologias, pois defende e propaga a necessidade de atualização, de ser uma unidade aberta à discussão, à contínua construção. Faz grassar que esta abertura é proporcionada pelo poder divino ao homem planetário. É por intermédio desta postura que vem crescendo em expressão espiritual que se manifesta no cultural, social, político e econômico.

Palavras-chave: isonomia, evolucionismo, Faculdade de Teologia Umbandista, preconceito, Religiões Afro-brasileiras

ABSTRACT

African-Brazilian religions, especially Umbanda, in its various schools, support the Darwinian theory, because it is convinced that everything happens with the endorsement of the supernatural, with the intervention of the Orisha. We realize that african-Brazilian religions are not insensitive to the archaeological discoveries that demonstrate different biomes in different geological ages and evidences of changes, step by step, from one species to another.

In FTU – Faculdade de Teologia Umbandista (Umbanda Theology College) - the only college of theology of the Brazilian matrix is discussed intersections or convergence between the various knowledges and practices, so up to date with science, philosophy, art and other religions. There is an extensive study in theology and comparative religion, where the most of all religions or theologies are dissected.

We are convinced, not by proselytizing or in defense of our own cause, that umbanda theology differs from other theologies, as it defends and propagate the need of updates, to be an open unit for discussion in continuous construction. It believes that this opening is provided by the divine power to the planetary man. It is through this approach that has been growing in spiritual expression that manifests itself in cultural, social, political and economic areas.

Keywords: equality, evolutionism, Umbanda Theology College, prejudice, Afro-Brazilian Religions


ISONOMIA É MESMO PARA TODOS?!

A teogonia e a cosmogonia umbandistas nos dizem que imediatamente antes do início dos tempos só havia a substância escura imersa no vazio do infinito. Num determinado instante essa substância escura foi se condensando até ficar do tamanho da menor subpartícula que conhecemos na atualidade.

A cosmologia umbandista relata que o Poder Volitivo do Orixá (vontade e poder operante) deflagrou no “ovo cósmico” a cosmogênese, manifestada em luz, som e movimento. Após a formação das constelações, veio a formação dos sistemas solares, inclusive o sistema onde o planeta Terra está inserido. Sem nos determos nos pormenores da planetogênese, após bilhões de anos surge a vida (biogênese).

Estabilizado o sistema geofísico (solo, atmosfera e hidrosfera) tem inicio no mar a vida. A priori com os unicelulares (ovo biogênico) que deflagram além do reino vegetal o reino animal, num complexo processo denominado filogênese (evolução das espécies). A ciência terrena afirma que a cosmogênese data de aproximadamente 13,7 bilhões de anos e a planetogênese 4,3 bilhões de anos.

Do unicelular (autotrófico ou heterotrófico?) ao homem venceu-se bilhões de anos, num processo de constantes mudanças e aperfeiçoamento da forma (vida), onde o Orixá atuando na natureza propiciou a evolução como conhecemos na atualidade. Pelo que expusemos o mito de formação do universo e criação, segundo as religiões afro-brasileiras, em especial a Umbanda, na sua vertente ou Escola de Síntese, é muito próximo do proposto pelas ciências.

É muito diferente das demais religiões, principalmente das religiões abraâmicas ou religiões do livro (Pentateuco, Novo Testamento e Corão) que defendem o “criacionismo”, portanto diferentes das religiões afro-brasileiras.

No ano de 2009, as vésperas do aniversário de Charles Darwin, o pai da teoria da evolução, que afirmava que animais, plantas e seres humanos mudam para adaptarem-se às condições do ambiente ao longo dos tempos, por meio da seleção natural, surge um estudo publicado na Inglaterra o qual afirma que mais da metade dos britânicos acreditam no “design inteligente” em detrimento da teoria da evolução. O livro escrito por Charles Darwin há 150 anos – A evolução das espécies – está em rota de colisão com a explicação bíblica, segundo a qual Deus criou o mundo em sete dias. A maioria das religiões cristãs tem esta posição ou crença.

Os que interpretam esses fenômenos segundo a Bíblia são denominados de criacionistas (em oposição às explicações cientificas) sendo os mais dogmáticos, os que se apóiam no criacionismo da Terra Jovem, que preconizam a vida ter surgido há aproximadamente 10.000 anos – que sabemos pelas ciências, ser tempo insuficiente para haver evolução dos unicelulares ao homem.

Uma crítica ampla e contundente ao evolucionismo é feita pelo design inteligente. Sentenciam que a geração das espécies como os mamíferos é complexa demais para ter ocorrido por acaso ao longo do tempo. Afirmam que somente uma inteligência superior poderia tê-la projetado. Por que não? Mas não invalida a teoria da evolução e consequente tempo necessário.

As religiões afro-brasileiras, principalmente a Umbanda, em suas várias Escolas, defendem a teoria darwiniana, pois tem convicção que tudo acontece com o aval do sobrenatural, com a intervenção do Orixá.

Percebemos que as religiões afro-brasileiras não são insensíveis às descobertas arqueológicas que demonstram biomas distintos nas diferentes eras geológicas e exemplares de mudanças, passo a passo, de uma espécie a outra.

Somos coniventes com a ciência mesmo que nos acusem de racionalista e pragmático. Somos sim pela realidade, pelo real. Não podemos negar a realidade do Orixá, confirmada pela ciência.

Se em 2009, na Grã Bretanha mais de 50% das pessoas acham que o planeta Terra foi criado nos últimos dez mil anos, em completo desalinho com os fundamentos da ciência, acreditamos que na América do Sul, especialmente no Brasil, os números não são diferentes. No jornal Folha de S. Paulo em seu caderno “Mais”, afirma que o crescimento do criacionismo, segundo cientistas bretões deve-se a:

1. Aumento da população de imigrantes islâmicos

2. Igrejas pentecostais de africanos ou afro-descendentes

3. Rigidez de alguns intelectuais, tal como Richard Dawkin, escritor das obras Gene egoísta e Deus, um delírio.

Não desmerecemos os cientistas bretões, todavia não acreditamos que o avanço do criacionismo seja somente, ou quiçá, pelas causas aventadas. Sabemos do crescimento maciço do Islamismo e das igrejas evangélicas, principalmente as pentecostais e neopentecostais que realmente poderiam ser causas do aumento do criacionismo.

Não podemos, a bem da verdade, olvidar outros segmentos religiosos no contexto aventado. Todos sabem que há muito tempo essas religiões vem se opondo ao conhecimento científico, e mais, fazendo uma cisão, um processo irreconciliável com a ciência.

No passado essas religiões impuseram suas doutrinas dogmáticas por intermédio de seus processos culturais (eurocentrismo colonizador); outros mais açambarcaram os quatro cantos das Américas com suas missões, mormente no ensino das primeiras letras e, claro, da massificação da Bíblia (salvacionismo bíblico?!). É verdadeiro ou não o que aventamos? E há quanto tempo isso vem acontecendo?!

Uma coisa é certa, não se pode imputar as religiões afro-brasileiras o fazer grassar essas ideologias de submissão. Elas são vítimas da união do poder temporal com o poder espiritual. O que pode ter acontecido é que um ou outro umbandista ter contrariado a regra, tal qual aconteceu nos anos de chumbo, da ditadura militar (1964-1985), em que se uniu aos militares traindo seus irmãos de fé e muitos brasileiros que “partiram num rabo de foguete”. Mas quem são? Deveríamos perguntar por quê? Todos sabem!...

Retomando e retornando ao fulcro central de nossa discussão, se não fosse a revolução copernicana, “afirmando e provando” que o Sol e não a Terra era o centro do universo ainda estaríamos, com certeza, cegos e submissos. Imagine-se à época o que isso representou, pois a concepção medieval cristã afirmava que o homem era o ser supremo da criação, e nessa condição, seu habitat, a Terra, deveria ter o privilégio de ser o centro em relação aos outros astros. Compreende-se assim o repúdio, na época, a reação à tese copernicana. Felizmente para nossa civilização a obra foi publicada após sua morte.

O mesmo pode se dizer de Charles Darwin, pois a concepção de homem passou a ser associada a um processo evolutivo natural, no qual o ser humano mantém relações com outros seres naturais (vegetais, animais). O homem deixou de ser uma criação especial para irmanar-se aos demais seres vivos, pois foi no processo de seleção natural que ele desenvolveu suas características peculiares. (é bom reiterar que nas religiões afro-brasileiras não aplicamos o darwinismo nos aspectos espiritual, social, político e econômico).

Citando o processo de seleção natural, não podemos olvidar Mendel e suas leis de hereditariedade, descoberta dos cromossomos, dos genes até culminar com o Projeto Genoma Humano (P.G.H.)

E Freud?! Foi o mais contundente de todos, inclusive mais que o próprio Kant que preconizava o racionalismo crítico.

Os pressupostos ou teoria geral freudiana (psicanálise) afirmavam que a mente ou psique podia ser associada por processos analógicos ao iceberg. Sua porção submersa (90%) está associada ao inconsciente, a porção emersa (10%) associada ao consciente.

O que se pode depreender da teoria freudiana? Ao afirmar que a maior porção da mente é inconsciente revelou que todos estão nivelados pela inconsciência e não pela consciência, pois esta só representa 10% da mente. Talvez aí esteja o combate sem tréguas desferido contra Freud. O que Darwin fez com a natureza colocando todos os seres no mesmo plano, Freud fez com as humanas criaturas. A universalidade do inconsciente foi uma verdadeira ruptura na eugenia e hegemonia de certos indivíduos sobre outros. (Lastima-se que os outros não foram informados!) Essa arrogância persevera, é atualizada em nossos dias, onde o poder dos “fortes e sábios” oprime os “fracos e ignorantes” em todos os sentidos. Que fazer?

Deixando essa resposta ao leitor amigo, continuemos, pois todos conhecem nossa posição; focalizemos as igrejas, sinagogas e mesquitas, pois nelas ficou a idéia de que o evolucionismo é sinônimo de ateísmo, portanto é melhor ser criacionista. Não é por causa dos dogmas de Dawkin, assim como de outros insensíveis intelectuais, que a tese do evolucionismo é adepta ou incentivadora do ateísmo.

O que não podemos, a bem da verdade, é sermos favoráveis às teorias bíblicas no que concerne à ciência e, em especial, à teoria da evolução e da criação. Há tempo esses conceitos bíblicos deveriam ser atualizados, sem que isso significasse heresia para com a fé dessas veneráveis religiões.

As religiões em geral necessitam de atualização e reconciliação com as várias realidades, inclusive com a ciência e seus avanços tecnológicos que promovem uma melhor qualidade de vida a todos.

Temos convicção, não por proselitismo ou defesa em causa própria, que a teologia umbandista difere de outras teologias, pois defende e propaga a necessidade de atualização, de ser uma unidade aberta à discussão, à contínua construção. Faz grassar que esta abertura é proporcionada pelo poder divino ao homem planetário. É por intermédio desta postura que vem crescendo em expressão espiritual que se manifesta no cultural, social, político e econômico.

Depois de todo esse enredo, não entendemos o porquê do órgão competente da educação do País querer que a teologia umbandista, em sua grade curricular, tenha disciplinas que privilegiem a teologia das demais religiões ou principalmente as cristãs.

Exigem que tenhamos professores teólogos independentes se os nossos sejam sacerdotes com titulação em outras áreas que não a teologia. Sabem que possuímos há menos de dez anos a única Faculdade de Teologia que propugna uma religião essencialmente brasileira – a Umbanda. Ela precisa ser encarada como tal, e não como uma teologia cristã. Temos outras formas de entendimento das coisas sagradas e até das ciências às quais nos posicionamos de maneira agonista, óbvio, ressalvando os fatores éticos, mas sem negar a sua autonomia, tal como não queremos que neguem as nossas.

No encerramento, queremos reiterar que a maioria das faculdades de teologia são cristãs em seus diversos segmentos e que possuem uma grade curricular em desalinho com a grade de teologia umbandista. Sim, somos confessionais, nossa teologia é umbandista. Será que ainda há o peso do preconceito por sermos de origem afro-ameríndia? Será que pensam que na faculdade ensinamos a fazer “macumbas”? Ou será que não podem conceber que uma teologia de índios, negros, mestiços, de pobres e excluídos de todos os matizes se arvore em falar de saber teológico, filosófico e científico, e mais, não ser criacionista e muito menos adepta do design inteligente?

Após nossas considerações que são indignações do pacífico e justo, não podemos nos submeter aos preconceitos vários, principalmente quando nos posicionamos de maneira diferente das demais teologias.

Expusemos que a Umbanda em sua teologia não tem quase nada em comum com as teologias católica e protestantes, em seus diversos segmentos.

Na FTU – Faculdade de Teologia Umbandista – a única faculdade de teologia de matriz brasileira se discute a transversalidade ou convergência entre os vários saberes e fazeres, portanto atualizada com a ciência, filosofia, arte e demais religiões. Há um estudo aprofundado em teologia e religiões comparadas, onde se dissecam ao máximo todas as religiões ou teologias.

Como afirmamos, a FTU é uma instituição teológica confessional. Somos umbandistas, adeptos das religiões afro-brasileiras, e é calcado nesses princípios que esperamos ser avaliados. O mesmo que esperamos acontecer num curso de especialização (latu sensu) e de mestrado (strictu sensu) em teologia umbandista.

Por que precisamos fazer nossa pós-graduação em uma faculdade de teologia confessional diferente da nossa? Por que precisamos fazer mestrado em teologia numa faculdade católica ou protestante? Por quê? Muitos talvez digam ser necessário ter conhecimentos de outras teologias. Não, pois no curso de graduação da FTU contemplam-se quase todas as teologias. (teologia comparada)

Suponhamos que, por absurdo, concordemos com a assertiva de que precisamos conhecer outras teologias, (as cristãs, é claro) a recíproca também não seria verdadeira? Os católicos ou protestantes se sentiriam à vontade de cursarem suas pós-graduações em uma instituição em que o viés maior será em teologia umbandista ou das religiões afro-brasileiras? Claro que não, portanto, não tem porque impor.

Precisamos de isonomia!!!

O vocábulo já define – direito igual para todos!!!

Seria isso falacioso?!

Isonomia é mesmo para todos?

Será mesmo?

Espero que sim! Afinal, estamos ou não em um país democrático?

Axé.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá

Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico

Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”

Publicação 55

2 comentários:

  1. Excelente o texto que nos leva a refletir sobre o papel da ciência (abertura da mente ao ambiente no qual estamos inseridos) e o crer, fazendo uma integração entre estes dois universos.

    Pelo pouco que conheço, à época "antiga", houve um "uso" da crença com base no irreal e longe da ciência, pois esta última poderia trazer integração com o real e vivencial. Poderia ai haver um risco? talvez por esta razão era proibitivo qualquer tipo de relação nesta linha.

    Na Umbanda, vivemos a clareza dos pensamentos e atitudes. Temos a possibilidade da vivência segundo nossas crenças além de poder associar aos conhecimentos científicos, nos possibilitando ser de uma forma inteligente e crente ao mesmo tempo.

    Saravá fraterno e com muito Amor,
    Reinaldo

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  2. Peço sua benção Mestre,

    Excelente texto, argumentação arguta e lógica irrepreensível. Inclusive porque desvela um dos mecanismos de imposição e sujeição das religiões afro-brasileiras à esfera de domínio católico/protestante. Questão delicada e omitida nos fóruns de discussão.

    Uma das principais disciplinas destas teologias, lembramos, é a dita teologia sistemática. Baseia-se em dogmas e visa, sobretudo, a ser um discurso apologético cristão, que pretende não dialogar mas manter a hegemonia das “verdades eternas e obrigatórias”. Qualquer outra visão sobre o Sagrado é classificada de heresia. Aliás, heresia tem sua etimologia no grego e significava originalmente ação de tomar ou escolher, portanto de liberdade de escolha. Todos nós sabemos o preço que historicamente pagaram aqueles que ousaram ter esta liberdade e que significado esta palavra tem sob o jugo católico.

    A nossa liberdade religiosa não é total porque está na dependência de balizamento jurídico já que “a proteção aos locais de culto e suas liturgias” são assegurados “na forma da lei”, conforme reza a Constituição Federal de 1988. Assim, pensamos que se houver um caminho jurídico em que está isonomia e liberdade possam ser asseguradas, será melhor trilhá-lo para salvaguardar as religiões afro-brasileiras.

    Aratish

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