segunda-feira, 1 de março de 2010

Ritos de Fundamento

RESUMO

A Espiritualidade é inerente a todo ser humano, vivente no interior dele. Todos nós temos corpo e mente. À porção Inconsciente da mente associamos à Espiritualidade. O acesso à espiritualidade pode se dar por intermédio de vários ritos das religiões afro-brasileiras, que evocam, trazem o conteúdo do inconsciente decodificado e traduzido para o consciente.

O uso do transe anímico, por exemplo, além do aspecto de catarse, ou seja, de vazão de sentimentos reprimidos, desagregando cargas negativas mentais, também pode ser usado para favorecer uma penetração no inconsciente individual, coletivo e cósmico, trazendo harmonia interior e consonância com os ritmos e ciclos da natureza. O corolário deste rito de transe anímico será a transmissão do reencontro, unindo-se passado, presente e futuro, do inconsciente ao inconsciente profundo (Espiritualidade). Tal reencontro encontra-se em Poder de Exu, o Senhor dos limites.

Palavras-chave: Axé, Espiritualidade, Exu, Inconsciente, Ritos de Fundamento.

ABSTRACT

Spirituality is inherent to every human being, living inside it. We all have body and mind. The unconscious part of the mind we associate with spirituality. Access to spirituality can be given through various rites of african-brazilian religions, which evoke, bring the contents of the unconscious decoded and translated into the conscious.

The use of trance soul, for example, beyond the point of catharsis, or the flow of feelings, mental disaggregating negative charges, can also be used to facilitate penetration into the individual, collective and cosmic unconscious, bringing inner harmony and consonance with the rhythms and cycles of nature. The corollary of this rite of trance soul will be the transmission of reunion, uniting past, present and future, of the deep unconscious to the unconscious (spirituality). This reunion is in the Power of Exu, the Lord of the limits.

Keywords: Axé, Spirituality, Exu, Unconscious, Rites of basis.


RITOS DE FUNDAMENTO

Nos textos postados no blog afirmamos que a Espiritualidade é inerente a todo ser humano, vivente no interior dele. Todos nós temos corpo e mente. A mente é como se fosse um iceberg. A maior porção do iceberg é submersa (inconsciente) e a menor emersa (consciente). À porção submersa associamos à Espiritualidade.

O acesso à espiritualidade pode se dar por intermédio de vários ritos das religiões afro-brasileiras (inumeráveis ritos de fundamento), que evocam, trazem o conteúdo do inconsciente decodificado e traduzido para o consciente. À guisa de exemplo, daremos um dos mais simples ritos de fundamento, deveras conhecido nas diversas religiões afro-brasileiras.

RITO DE TRANSE ANÍMICO

O uso de instrumentos de percussão, por seu caráter telúrico, predispõe às manifestações do inconsciente, favorecendo o estado anímico do indivíduo. O uso da percussão ritualística pode ser usado com finalidade terapêutica, no sentido de permitir uma catarse de tensões e traumas armazenados no inconsciente, pelo transe anímico ritualisticamente coordenado.

Além do aspecto de catarse, ou seja, de vazão de sentimentos reprimidos, desagregando cargas negativas mentais, o uso do transe anímico também pode ser usado para favorecer uma penetração no inconsciente individual (na estratificação do inconsciente superficial), coletivo e cósmico, trazendo harmonia interior e consonância com os ritmos e ciclos da natureza.

Na expectativa de mostrar como é feito um rito de transe anímico, sob os auspícios de Elegbara, do poder de Exu, é que relatamos a seguir, um roteiro de transe anímico. Esperamos assim tornar público um rito de fundamento, especialmente ligado ao elemento terra, movimentado pelos instrumentos de percussão ou Ilús.

ENREDO BÁSICO

Início

A primeira fase deste rito dura aproximadamente 30 minutos e nele serão movimentados os conteúdos do inconsciente superficial de cada um por intermédio da percussão adequada por iniciados neste mistério.

De forma simplificada, podemos compreender o inconsciente como tudo que está armazenado, sobretudo nosso passado e que não temos acesso imediato, ou por meio da vontade. Nele se encontram todas as vivências desde nossa existência como Espíritos destituídos de qualquer agregação de energia/matéria sobre si, até as experiências vividas na atual encarnação e que de uma forma ou outra influenciam-nos o comportamento. No inconsciente esta registrada nossa história, tanto seus aspectos positivos como negativos, portanto, o que somos hoje deve-se, em parte, a toda essa história acumulada no inconsciente que nos influencia, ainda que não percebamos diretamente isso.

Como os Ilús têm caráter essencialmente telúrico, e no reino dos espíritos não existe energia/matéria, mas apenas os espíritos com seus atributos de percepção, consciência, inteligência e vontade utilizaremos sons especiais ligados aos primórdios da cosmogênese que ressoam até hoje como lembrança viva da criação.

Elegbara/Exu

Desde o momento da concretização do universo temos Exu como o grande agente da magia universal e sua função na formação do universo. Como Senhor do Inconsciente, ele tem acesso as informações primevas contidas no inconsciente superficial. Os Ilús serão utilizados como veículos para conduzir o participante a uma viagem fantástica, do princípio dos tempos até as experiências pré-hominais.

Para cada uma das fases descritas a seguir, os iniciados reproduzirão sons ou toques secretos distintos, correspondentes às ditas fases e um outro iniciado narrará a odisséia dos Espíritos no plano das formas. Durante esta fase se mantém sentados e percebem as fortes impressões que terão.

Primeira fase: O big bang

Foi o momento da grande explosão que deu origem ao universo a partir da polarização e da ordenação da energia ou matéria escura. Este fenômeno foi produzido pelos denominados Exus, sob a ordenação dos Orixás com a finalidade de receber os espíritos que desceram ao reino da energia/matéria.

Segunda fase: A descida do ser espiritual

Ocorreu como uma queda vertiginosa associada à separação do inconsciente profundo do então originado inconsciente superficial, quando do primeiro contato dos Espíritos com a energia/matéria, sendo então constituídos os primeiros veículos de manifestação da consciência, originando a mente sutilíssima, sutil e densa.

Terceira fase: Direcionamento dos Espíritos aos diversos lugares siderais

Ocorreu respeitando-se as afinidades vibratórias de cada um, de acordo com o grau de obscurecimento de consciência gerado pela “descida”.

Quarta fase: Planeta terra

Teve sua formação dentro da via láctea com um fragmento desprendido do sol, que passou a gravitar ao redor do astro. Entretanto havia necessidade de estabilizar a rota da Terra em sua órbita e a lua foi criada de um fragmento da terra, passando a exercer sua força gravitacional pela polarização dos influxos solares, criando as condições propícias para o aparecimento da atmosfera terrestre. Chegam então os Espíritos cuja destinação natural os situava vibratoriamente à Terra, eram os terráqueos.

Para que pudessem estar preparados para a primeira encarnação os Senhores da Forma os conduziram pelos reinos da natureza onde foram haurindo os mecanismos básicos para seus corpos sutis. Passaram pelo reino mineral, depois pelo reino vegetal e, por fim, pelo reino animal.

Neste momento, após o rito com os Ilús ter parado na fase pré-hominal, realiza-se uma oferenda ritualística contendo elementos minerais, vegetais, e animais (reatualizar o axé), consubstanciados nos sítios sagrados da natureza. Assim realiza-se uma louvação aos senhores da natureza, invocando-se os espíritos elementares superiores, revitalizando todos os participantes.

Depois de um período de latência simbolizado pelas oferendas aos elementares, revive-se os estágios finais preparatórios da primeira encarnação, onde ocorrem os ajustes derradeiros no corpo sutil, estes estágios finais serão revividos por Ofós (palavras de poder) pronunciados conjuntamente.

Tendo experimentado os aspectos do inconsciente coletivo planetário, chegamos a segunda fase do rito onde entraremos no âmbito do consciente. Para tanto serão utilizadas técnicas especiais envolvendo os sentidos externos e internos na expectativa de aumentar a autoconsciência. Obviamente se amplificamos o contingente consciente da personalidade, provocamos uma diminuição proporcional do contingente inconsciente e, produzimos uma amplificação da consciência. O corolário deste rito de transe anímico será a transmissão do reencontro, unindo-se passado, presente e futuro, do inconsciente ao inconsciente profundo (Espiritualidade). Tal reencontro encontra-se em Poder de Exu, o Senhor dos limites, ao qual agradecemos por permitir-nos a divulgação deste rito de fundamento, apresentado de várias maneiras, nas diversas manifestações das religiões afro-brasileiras ou afro-americanas.

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá



Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar"

Publicação 15

4 comentários:

  1. Mestre,

    Aranauan!
    Muito interessante e esclarecedora a matéria acima.
    Gostaria de buscar um esclarecimento, não sei se aqui seria o melhor caminho e lugar...na dúvida, vou deixar minha questão.
    A epilepsia é um tipo de transe? Ela pode ser considerada como pré-anímica?
    Saravá e Axé
    Yaratá

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  2. Simplesmente fantástico... A cada rito percorremos toda nossa história coletiva, nascemos e morremos individualmente (viagem do consciente ao inconsciente), e nos é ofertado a oportunidade de assumirmos as rédeas da nossa vida, saindo do automatismo. Portas se abrem e outras se fecham, desde que tenhamos este mérito...

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  3. Gostaria de estudar melhor.
    E estou grata por poder saber do rito e da importância de Exu - de quem tanto gosto.
    Obrigada.
    Barbara.

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  4. Sem duvida de uma profundidade impar, esse ritual é aberto a público, ou é um rito especial preparado somente para os irmãos do templo?]

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