quinta-feira, 31 de maio de 2012

Reflexões sobre a diversidade cultural-religiosa afro-brasileira


Hoje gostaríamos de apresentar algumas reflexões sobre a diversidade cultural-religiosa de nosso país. Vários foram os estudiosos que registraram as matrizes formadoras do povo brasileiro, um deles foi Darcy Ribeiro que sistematizou as contribuições culturais-religiosas dos ameríndios, africanos e indo-europeus.
Atualmente é corrente na academia a terminologia “matriz formadora” e gostaríamos de refletir sobre ela. Matriz é uma palavra que significa origem, fonte e a palavra formadora aquilo que dá corpo, estrutura, que constitui, assim, os indígenas autóctones, os negros que chegaram ao país escravizados e os indo-europeus na condição de colonizadores são povos que, com sua bagagem cultural, social, religiosa, estruturaram o que posteriormente veio a ser chamado povo brasileiro ou apenas o brasileiro.
Felizmente as religiões afro-brasileiras foram igualmente formadas pelas três matrizes fazendo com que elas tenham em seu bojo a diversidade de formas de viver e cultuar a religiosidade. Não vemos esse caldeamento como algo negativo, muito ao contrário, a grande riqueza das religiões afro-brasileiras é sua diversidade, o “colorido religioso”, a ampla gama de contribuições.
Infelizmente, muitos pensam que a diversidade é um elemento que dificulta a criação de uma identidade religiosa, mas nossa visão é justamente oposta. A diversidade é um dos elementos fundantes das religiões afro-brasileiras. O cientista social ou mesmo adeptos de outras confessionalidades, sentem dificuldades em ir a um determinado terreiro e não saber ao certo qual a linha praticada. Isso porque, ainda que cada Escola Afro-brasileira tenha sua cosmovisão e liturgia específica elas comungam de elementos tais como o transe, a dança, cânticos, crença nas entidades sobrenaturais, entre outras.
Outro dado que dificulta a real compreensão do universo religioso é a mídia, a qual sempre que pode, apresenta em seus programas de informação ou entretenimento mensagens subliminares ou de descrédito e gozação.
O trabalho de todos os militantes afro-brasileiros sejam eles sacerdotes e sacerdotisas ou adeptos é no terreiro com seus Orixás, ancestrais, encantados para que essa vivência possa sair das quatro paredes templárias e ser incorporada na vida cotidiana. É um processo interno, de vivência iniciática e também externa de estilo de vida.
Agradecemos por fazer parte da diversidade cultural-religiosa afro-brasileira que, em última instância, é vivenciar a diversidade humana brasileira!
Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 257

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Tradição, Linhagem e Ética nas Religiões Afro-brasileiras


Dedicamos nossa última publicação às questões da ética nas religiões afro-brasileiras. Gostaríamos de prosseguir este assunto com novas reflexões que esperamos possam contribuir com todos.
A ética pode ser abordada em vários setores e a religião é apenas mais um desses. Consideramos, porém, que a ética nas religiões afro-brasileiras difere um pouco das demais religiões. Não é melhor, mas diferente.
Chegamos a este argumento pelos anos de vivência no universo afro-brasileiro e perceber nele um senso de pertença e de comunidade pouco encontrado nas religiões de grande números de adeptos. Nestas (catolicismo, protestantismo, entre outras), os adeptos vão aos rituais, comungam dos mesmos hábitos religiosos mas acabam, na maioria das vezes, dividindo seu modo de vida com os familiares consanguíneos. A relação com a comunidade religiosa é mais dissolvida.
Nas religiões afro-brasileiras, que se originaram de três matrizes (ameríndia, africana e indo-europeia), talvez por séculos de enfrentamento, perseguições e pelo fato histórico de subjugação principalmente dos indígenas e negros escravizados, as religiões vinculadas a estas matrizes apresentam forte vínculo entre seus adeptos.
O terreiro, templo, choupana, choça, roça e tantas outras denominações das casas de santo das religiões afro-brasileiras configuram-se como um santuário de laços espirituais, os quais são possibilitados pelo sacerdote/sacerdotisa (pai/mãe de santo). Aqui retomamos a questão da linhagem/raiz como um dos elementos fundamentais para a constituição de uma Escola religiosa Afro-brasileira. O conhecimento do santo é “obtido” via oralidade e vivências com o (a) dirigente espiritual e os irmãos de santo. O conhecimento não é imbutido na cabeça dos iniciantes, antes, todos constroem o conhecimento coletivamente, em uma teia de relações espirituais.
A liderança religiosa exerce um papel de suma importância coordenando mentes e corações que certamente vibram em sintonias diferentes. Mas o segredo é justamente esse, fomentar o equilíbrio entre as pessoas de modo que as competências individuais sejam ressaltadas e colocadas em prol do Todo, da comunidade. A teoria da gestalt, por nós utilizada em outros textos, é aqui retomada. Os sacerdotes e sacerdotisas procuram sempre pensar a agir pelo Todo, pela comunidade e não pelas individualidades. É uma ética simples, porém complexa, na medida em que os seres humanos estão cada vez mais individualistas e egoístas. Pais e mães espirituais labutam diuturnamente contra a maré da sociedade planetária...mas não desistem!
Assim, o senso de pertença da comunidade é muito forte e auxilia a compreensão da identidade das religiões afro-brasileiras. Sua ética é pautada, portanto, na interdependência.
Aproveitando o ensejo finalizamos com alguns versos do saudoso poeta João Cabral de Melo Neto, cuja sensibilidade foi capaz de sintetizar em um poema a ética religiosa afro-brasileira, sem dar-se conta disso:
“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos (...)
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos”
Axé!





Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 256

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Espiritualidade e ética dos adeptos das Religiões Afro-brasileiras



Em nossa última publicação discorremos sobre a aula inaugural do módulo Escolas das Religiões Afro-brasileiras na Especialização lato sensu da Faculdade de Teologia Umbandista.
Discutimos sobre os fundamentos basilares que sustentam o conceito de Escolas sobretudo a questão do respeito à diversidade de rituais. As Religiões Afro-brasileiras formaram-se de três matrizes: a ameríndia, africana e indo-europeia. Após os vários processos de interação, justaposição e sincretismos entre essas três matrizes houve uma proliferação das formas de se cultuar o Sagrado. Consideramos todas elas justas e respeitamos todas as posteriores Escolas formadas dentre as quais citamos: Escola da Umbanda Mista, Escola da Umbanda Traçada, Escola do Candomblé de Caboclo, Escola do Tambor-de-mina, Escola da Jurema etc.
Atualmente a noção de diversidade é contemplada em todas as categorias: gênero, classe, filosofia, política. Entretanto, ao nos aprofundarmos no universo religioso afro-brasileiro podemos verdadeiramente sentir as múltiplas formas de ser, sentir, atuar, praticar, louvar a Tradição. Claro, há aqueles que afirmam ser pela diversidade mas não suportam vivenciar e comungar da prática religiosa alheia. É uma diversidade de fachada, teórica.
Ao longo de quatro décadas de vida de santo pude observar os vários processos que englobam a vivência iniciática e constatei que em algum momento as verdades veem à tona. Se a pessoa procura a iniciação por títulos, esta não se mantém, pois para isso é necessário uma transformação profunda.
As Religiões Afro-brasileiras são pela diversidade e pela liberdade, procuram de todas as formas acompanhar e nortear positivamente a vida dos filhos que as procuram. Esperamos que nossos leitores encontrem caminhos seguros de espiritualidade.
Axé!

Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, Saravá
Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Ifatosh'ogun "O sacerdote de Ifá que tem o poder de curar”
Publicação 255